COMPOSIÇÃO QUÍMICA DO MESOCARPO E DO ÓLEO DE TRÊS POPULAÇÕES DE PUPUNHA (Bactris gasipaes) DO RIO SOLIMÕES, AMAZONAS, BRASIL (1)
Charles R. Clement(2), Jaime P. L. Aguiar(2), David B. Arkcoll(3)
Clement, C.R.; Aguiar, J.P.L.; Arkcoll, D.B. 1998. Composição química do mesocarpo e do óleo de três populações de pupunha (Bactris gasipaes) do Rio Solimões, Amazonas, Brasil {Chemical composition of the mesocarp and mesocarp oil in three populations of pejibaye (Bactris gasipaes) along the Solimões River, Amazonas, Brazil}. Revista Brasileira de Fruticultura, 20(1):115-118.
RESUMO: A composição centesimal do mesocarpo e do óleo do mesocarpo de frutos de pupunha (Bactris gasipaes Kunth, Palmae) foram determinadas em amostras aleatórias das populações de Benjamin Constant, Fonte Boa e Coari, Amazonas, Brasil. As populações foram diferentes nos teores de óleo (10,1±6,6; 8,8±6,1; 21,0±11,6% peso seco, respectivamente) e de outros carboidratos. Benjamin Constant tem os frutos maiores (102±32 g), mais ricos em amido (71,6±8,3% peso seco), enquanto que Coari tem os frutos menores (32±9 g), mais ricos em óleo. Existe muita variação na quantidade (de 0,3 a 35%) e na composição do óleo, com a soma dos ácidos graxos insaturados variando de 20 a 80%. Não foram encontradas diferenças entre as médias das populações para os teores dos ácidos graxos porque teve muita variação dentro das populações, especialmente para os ácidos palmítico (17 a 75%) e oléico (12 a 76%).
Termos de indexação: Composição de óleo, ácidos graxos, raças primitivas.
CHEMICAL COMPOSITION OF THE MESOCARP AND MESOCARP OIL IN THREE POPULATIONS OF PEJIBAYE (Bactris gasipaes) ALONG THE SOLIMÕES RIVER, AMAZONAS, BRAZIL
ABSTRACT: The proximate composition of the mesocarp and the fatty acid composition of the mesocarp oil from pejibaye (Bactris gasipaes Kunth, Palmae) fruit were analysed in random samples from the Benjamin Constant, Fonte Boa and Coari, Amazonas, Brazil, populations. There were population differences with respect to oil (10.1±6.6; 8.8±6.1; 21.0±11.6% dry weight, respectively) and other carbohydrate (N-free extract) levels. Benjamin Constant had the largest (102±32 g), starchiest fruit (71.6±8.3% dry wt.), while Coari had the smallest (32±9 g), oiliest fruit. There is ample variation in oil quantity (from 0.3 to 35%) and composition, with the sum of insaturated fatty acids varying from 20 to 80%. Population mean differences were not detected for fatty acids because there was so much within population variation, especially for palmitic (17 to 75%) and oleic (12 to 76%) acids.
Index terms: oil composition, fatty acids, landraces.
A pupunha (Bactris gasipaes Kunth, Palmae) possue cinco possíveis usos na agro-economia moderna dos trópicos úmidos: o fruto para (1) consumo humano direto; (2) farinha para panificação; (3) óleo vegetal; (4) ração animal; e (5) o palmito (Clement & Mora Urpí, 1987). Cada uso do fruto depende de sua composição química. As raças primitivas de pupunha apresentaram diferenças marcantes nas dimensões das partes vegetativas e reprodutivas das plantas (Mora Urpí & Clement, 1988) e na composição química do fruto e de seu óleo (Rojas et al., 1994; Fernández-Piedra et al., 1995). Portanto, as diferentes raças poderão servir como bases genéticas para os programas de melhoramento genético planejados (Clement & Mora Urpí, 1987).
Rojas et al. (1994) encontraram diferenças químicas significativas entre as raças 'microcarpa' Juruá, do alto Rio Juruá, Acre, e 'macrocarpa' Vaupés, do Rio Vaupés, Brasil e Colombia, nos teores de óleo, carboidrato e os ácidos graxos 16:1, 18:1 e 18:2. Fernández-Piedra et al. (1995) encontraram diferenças significativas entres os ácidos graxos 16:0, 18:1, 18:2 e 18:3 de três populações de Costa Rica (Tucurrique, Guápiles e Guatuso) e a de Yurimaguas, Peru. No presente trabalho se analisaram amostras de três populações coletadas ao longo do Rio Solimões, Amazonas, Brasil.
Em 1983 foram coletadas amostras aleatórias da polpa (mesocarpo + exocarpo) dos frutos de 10 plantas por população: Benjamin Constant (raça 'macrocarpa' Putumayo), Fonte Boa e Coari (raça 'mesocarpa' Solimões). Estas foram acondicionadas em álcool comercial (90-94%) em potes plásticos e congelados a -10oC. As amostras (fruto + álcool) foram secadas na estufa a 60oCaté peso constante. A análise de sua composição centesimal seguiu a AOAC (1975): proteína pelo processo de Kjeldahl, gordura por extração com éter de petróleo em Soxhlet, cinzas na mufla a 555oC, fibra crua, e outros carboidratos por diferença. Devido a absorção do álcool pelos frutos, a matéria seca e a fibra foram estimadas com base no peso médio dos frutos coletados no campo e não diretamente dos frutos analisados. A composição do óleo foi determinada por cromatografia de gás após metilização, utilizando um Varian 3700/CDS 111, com coluna de 15% OV-275/Chromosorb W-AW-DMCS, temperatura da coluna de 220oC, temperatura de detecção de 300oC, temperatura de injeção de 250oC, com gas de arraste de N2 - 30 ml/min, sensibilidade de 109, atenuação de 4X, para o volume de injeção de 0.1 ml, e velocidade de papel de 30 cm/h. As médias populacionais foram comparadas com análise de variância de uma via e a Diferênça Mínima Significativa (LSD) (Sokal & Rohlf, 1981).
A porcentagem de polpa em todas as populações foi acima de 90% (Tabela 1), sendo maior na população de Benjamin Constant, como esperado de uma raça 'macrocarpa' (Mora Urpí & Clement, 1988). As porcentagens de matéria seca foram similares às citadas por Arkcoll & Aguiar (1984), confirmando que os dados do peso do fruto fértil obtidos no campo permitiram estimar este parâmetro e o da fibra com precisão aceitável (Tabela 1).
Encontrou-se diferenças significativas entre as populações para as porcentagens de óleo e de outros carboidratos (Tabela 1), sendo que a população de Coari apresentou mais óleo e menos carboidratos que as outras. Clement et al. (1987) sugeriram que a população de Fonte Boa apresenta introgressão com a raça 'macrocarpa' Putumayo em termos de características dos frutos; os teores de amido não forma diferentes entre Fonte Boa e Benjamin Constant, embora os frutos foram diferentes em peso. A população de Benjamin Constant teve uma amostra com 25% de óleo (Tabela 1), considerado alto para uma população 'macrocarpa.' A razão mais provável é o alto grau de segregação esperado numa população altamente derivada e geneticamente variável. A população de Coari apresentou um individuo com 35% de óleo, suficiente para ser introduzido no programa de melhoramento para óleo (Clement & Arkcoll, 1991). Tanto o teor de óleo como de carboidratos discriminaram entre populações, sugerindo seu uso como descritores. Não é interessante usar os dois, porque o óleo e os outros carboidratos são alta e negativamente correlacionados (r = -0,81). O objetivo do programa de melhoramento determinará o caracter a ser utilizado.
A composição do óleo variou entre populações mas não foram encontradas diferenças significativas entre as médias populacionais dos ácidos graxos (Tabela 2), ao contrário dos casos relatados por Rojas et al. (1994) e Fernández-Piedra et al. (1995). O mais interessante foi a alta variação na porcentagem de ácidos graxos insaturados, especialmente o ácido oleico. A população de Fonte Boa apresentou uma planta com apenas 20% de insaturados, enquanto a população de Coari apresentou uma com 80%. A amplitude da variação encontrada nestas três populações foi a maior já encontrada e podería ser outra evidência de introgressão entre estas populações. Os ácidos poliinsaturados foram encontrados em baixas quantidades (Tabela 2), muito menores que as proporções encontrados por Rojas et al. (1994) e Fernández-Piedra et al. (1995).
Agradecimentos
Os autores agradecem a todos os colegas que participaram de uma ou outra forma da primeira expedição (1983) de coleta de germoplasma de pupunha financiada pela US-AID e a Sra. Dalva Pereira, do CTAA-EMBRAPA, pelas análises da composição do óleo.
Referências
AOAC. Handbook of Chemical Analysis, 10th Ed. Washington: Association of Official Analytical Chemists, 1975.
ARKCOLL, D.B.; AGUIAR, J.P.L. Peach palm (Bactris gasipaes H.B.K.), a new source of vegetable oil from the wet tropics. Journal of the Science of Food and Agriculture, v.35, p.520-526, 1984.
CLEMENT, C.R.; ARKCOLL, D.B. The pejibaye (Bactris gasipaes H.B.K., Palmae) as an oil crop: potential and breeding strategy. Oleagineux, v.46, n.7, p.293-299, 1991.
CLEMENT, C.R.; MORA URPÍ, J. The pejibaye (Bactris gasipaes H.B.K., Arecaceae): multi-use potential for the lowland humid tropics. Journal of Economic Botany, v.41, n.2, p.302-311, 1987.
CLEMENT, C.R.; MOREIRA GOMES, J.B.; FERREIRA, S.A.N.; FONSECA, C.E.L. Variação fenotípica de pupunha (Bactris gasipaes H.B.K.) selecionada da população de Fonte Boa, AM. II. Análise morfométrica. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE FRUTICULTURA, 9, 1987, Campinas, SP. Anais.... Campinas: SBF, 1988. p.685-690.
FERNÁNDEZ-PIEDRA, M.; BLANCO-METZLER, A.; MORA URPÍ, J. Contenido de ácidos grasos en cuatro poblaciones de pejibaye, Bactris gasipaes (Palmae). Revista de Biologia Tropical, v.43, n.1-3, p.61-66, 1995.
MORA URPÍ, J.; CLEMENT, C.R. Races and populations of peach palm found in the Amazon basin. In: CLEMENT, C.R.; CORADIN, L. (eds). Final report, Peach palm (Bactris gasipaes H.B.K.) germplasm bank. Manaus: INPA/CENARGEN, US AID project report, 1988. p.78-94.
ROJAS, J.M.; SERRUYA, H.; BENTES, M.H.S. Chemometric classification of two peach palm (Bactris gasipaes H.B.K.) landraces (Juruá and Vaupés). Journal of the American Oil Chemist's Society, v.71, n.2, p.127-133, 1994.
SOKAL, R.R.; ROHLF, F.J. Biometry. The principles and practice of statistics in biological research, 2nd ed. San Francisco: W.H. Freeman, 1981.
Tabela 1. Estatísticos descritivos do fruto e sua composição centesimal (% peso seco) em três populações de pupunha (Bactris gasipaes).
| Descritor | Benjamin Constant | Fonte Boa | Coari | LSD(0.05) | |||
| média±dp | mín-máx | média±dp | mín-máx | média±dp | mín-máx | ||
| Peso fruto fértil (g) | 102±32 | 58-148 | 47±14 | 22-74 | 32±9 | 19-46 | 19,0 |
| % polpa/fruto | 96±1,6 | 92-97 | 93±2,9 | 86-96 | 91±2,5 | 87-94 | 2,2 |
| Matéria seca | 51,5±3,1 | 36-63 | 48,2±3,4 | 30-64 | 57,3±4,2 | 35-80 | - |
| Proteína | 5,3±1,4 | 3,4-7,4 | 6,3±1,4 | 4,5-8,5 | 7,1±2,3 | 5,5-13,2 | ns |
| Óleo | 10,1±6,6 | 3,2-24,9 | 8,8±6,1 | 0,3-18,1 | 21,0±11,6 | 9,1-35,4 | 7,8 |
| Carboidratos | 71,6±8,3 | 53,4-79,9 | 67,7±10,4 | 49,6-82,6 | 54,5±13,8 | 37,1-72,2 | 10,3 |
| Fibra | 11,6±3,4 | 7,6-19,1 | 15,8±8,8 | 8,9-37,2 | 16,3±5,9 | 9,2-24,2 | ns |
| Cinza | 1,5±0,15 | 1,3-1,8 | 1,5±0,25 | 1,1-2,0 | 1,3±0,25 | 0,9-1,6 | ns |
Tabela 2. Estatísticos descritivos dos ácidos graxos (% do óleo) que compõem o óleo do mesocarpo em três populações de pupunha (Bactris gasipaes).
| ácido§ | Benjamin Constant | Fonte Boa | Coari | |||
| média±dp | mín-máx | média±dp | mín-máx | média±dp | mín-máx | |
| C14:0 | 0,46±0,33 | 0,23-0,70 | 0,42±0,05 | 0,37-0,50 | 0,52±0,33 | 0,22-0,87 |
| C16:0 | 41,3±8,6 | 27,6-51,4 | 47,4±14,5 | 26,6-75,2 | 39,4±13,0 | 17,5-59,2 |
| C16:1 | 5,49±1,29 | 3,93-7,28 | 6,72±3,73 | 2,78-13,6 | 5,09±1,93 | 3,17-7,48 |
| C18:0 | 3,27±1,44 | 1,01-5,10 | 2,21±1,49 | 0,68-4,78 | 1,84±1,36 | 0,57-4,16 |
| C18:1 | 43,1±11,2 | 29,2-63,3 | 37,0±15,0 | 12,7-63,2 | 49,9±14,1 | 29,2-76,0 |
| C18:2 | 1,73±1,60 | 0,01-4,82 | 1,19±0,91 | 0,01-2,69 | 1,28±1,24 | 0,49-3,39 |
| C18:3 | 4,13±3,13 | 1,89-9,49 | 6,35±4,83 | 0,69-10,8 | 2,10±1,44 | 0,79-4,22 |
| C20:0 | 2,31±1,98 | 0,96-6,17 | 4,61±4,47 | 0,75-10,1 | 1,62±1,10 | 0,71-3,31 |
| insat.* | 53,3±10,7 | 43,4-71,1 | 47,6±15,7 | 19,6-71,3 | 57,6±14,1 | 35,8-80,9 |
§ Ácidos graxos: C14:0 - mirístico; C16:0 - palmítico; C16:1 - palmitoléico; C18:0 - esteárico; C18:1 - oléico; C18:2 - linoléico; C18:3 - linolênico; C20:0 - araquídico.
* A soma dos ácidos graxos insaturados (C16:1, C18:1, C18:2, C18:3)
1. Financiado pelos convênios INPA/CENARGEN/US AID no. DAN-5542-G-SS-2093-00 (1983/84) e INPA/FINEP no. 4.2.88.0062.00 (1988/90).
2 Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA, Cx. Postal 478, 69011-970 Manaus, AM, Brasil.
3 Dept. Agricultural Development, 7607 Elsenburg, Cape Province, Republic of South Africa.